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Por que o sucesso de um filme ou série
depende da produção executiva?

Laura Rossi foi produtora executiva da minissérie 'Senna' (Netflix/2024)

O sucesso de um filme ou uma série não depende, apenas, da criatividade e da beleza da obra. Atrás das câmeras, é o produtor executivo o grande responsável por viabilizar economicamente o projeto, distribuir para festivais e levar às salas de cinema, streaming e canais de TV. Oportunidades não faltam nesta área, que busca novos talentos a todo momento no Brasil. É o que conta Laura Rossi, produtora executiva com mais de 30 projetos premiados no currículo, dentre eles “Motel Destino” (Cannes 2024), a antecipada série “Senna”, produzida juntamente com a Netflix e os representantes brasileiros para o Oscar como “Que Horas Ela Volta?” (2015), “Bingo – O Rei das Manhãs” (2018) e “A Última Floresta” (doc, 2021).  Laura é professora do curso de Produção Executiva para Cinema e TV da Ethos Comunicação & Arte. Nesta entrevista, ela dá dicas para quem quer trabalhar na área ou apenas aumentar o conhecimento deste ramo encantador. Confira!

Por que você decidiu trabalhar com produção executiva e o que é que mais te encanta nesta área?

Essa é uma excelente pergunta, porque acredito que ninguém decida fazer cinema pensando na produção. Justamente porque é uma área “invisível” do entretenimento. Falamos muito dos criativos, os diretores, os roteiristas, seus processos e como a obra vem a existir nesse sentido, mas é praticamente inexistente uma cobertura para o público geral sobre os processos de produção, o financiamento, a distribuição, etc. Talvez não seja “sexy” o suficiente (risos). Então eu não iniciei minha trajetória na produção. Trabalhei com edição e pós-produção por quase cinco anos até escutar um conselho que dou até hoje: que todos os estudantes de cinema deveriam fazer estágio em uma produtora, independente da sua área de atuação, para justamente entender o que acontece por trás do criativo. Foi esse conselho que me levou para a produção executiva. Entrei para um estágio de seis meses, e estou na área há uma década. O que mais me encanta na produção executiva é viabilizar os projetos. Pegamos um projeto que é só uma ideia, viabilizamos seu desenvolvimento, sua produção, encontramos os parceiros para distribuição, e ainda fazemos com que uma obra de arte seja um projeto viável economicamente. É muito satisfatório o impacto do seu trabalho ser justamente fazer uma obra que você acredita acontecer.

Qual foi seu trabalho mais desafiador como produtora executiva?

Cada projeto é desafiador em sua própria jornada. Mas acabamos de voltar do Festival de Cannes, onde exibimos um projeto que talvez tenha sido um dos maiores desafios como produtora executiva: Motel Destino, que esteve na mostra competitiva do Festival, concorrendo a Palma de Ouro, um dos prêmios mais cobiçados do cinema mundial, pelo qual o Brasil não concorria desde 2019 com Bacurau.  O grande desafio dessa produção foi o tempo de execução. Em maio de 2023, o diretor do projeto, o brasileiro Karim Aïnouz, foi selecionado com seu primeiro filme estrangeiro para a competição do Festival de Cannes. Um grande feito para um grande talento brasileiro e, para nós, especialmente relevante: estaríamos filmando o projeto seguinte dele em Agosto daquele ano. Seria um projeto pequeno, de baixo orçamento, com foco mais de formação: um roteiro nascido na escola Porto Iracema das Artes a ser realizado com talentos locais do Ceará. Como foi de fato realizado. Mas entendemos que haveria muito interesse no próximo filme do realizador e resolvemos sonhar em justamente fazer um filme brasileiro que tivesse as especificidades para competir em uma sessão como a do Festival de Cannes. Para isso, dobramos o orçamento em maio e, durante os próximos 12 meses estivemos mergulhados em um grande desafio de produção executiva: enquanto filmavámos e pós-produziamos o filme (gastávamos dinheiro), estavámos também financiando os recursos (captando este dinheiro). Com a seleção em competição em Cannes, vemos que tudo valeu a pena, mas foi um processo bastante arriscado, que com certeza não é a forma de produzir que recomendo ou que se ensina nesse curso de Produção Executiva (risos)!

Você considera o cenário brasileiro promissor para quem quer trabalhar com produção executiva?

Com certeza. O mercado consumidor brasileiro de audiovisual é um dos mais importantes do mundo. Então a demanda por conteúdo brasileiro ou com elementos locais é muito grande. Ao mesmo tempo, temos uma indústria relativamente jovem, em especial muitas mudanças recentes na nossa indústria. É de 2001, por exemplo, a criação da Ancine, nosso órgão de regulamentação e fomento. É de 2007 a criação do FSA – Fundo Setorial do Audiovisual, a mais importante fonte de financiamento do setor atualmente, é de 2012 a Lei de Telas, que criou as cotas de programação independente em canais a cabo e gerou o boom da produção de séries no Brasil, e ainda tramita no congresso a proposta de lei para regulamentação de Plataformas. Ou seja, existe muito espaço para crescimento do setor que vai gerar cada vez mais uma demanda por profissionais que conheçam o funcionamento dos mecanismos de produção executiva, as regras de prestação de contas, as fontes de financiamento, etc.

De que forma seu curso na Ethos é importante para quem quer trabalhar na área?

O curso serve diversos propósitos. Para profissionais que atuam nas mais diversas áreas do audiovisual, ele serve como um “estágio em uma produtora”, dando um panorama super completo do que é a produção executiva e como se viabilizam as obras audiovisuais. Para estudantes de Cinema, Rádio & TV, Multimeios, Comunicação, etc que querem trabalhar com produção executiva, o curso é um complemento bastante necessário à formação acadêmica tradicional. Eu me tornei docente justamente por notar o gap que existiu na minha formação (e existe até hoje) de formação sobre produção executiva nos currículos universitários. Finalmente, para profissionais que já atuam ou querem atuar com produção executiva, o curso oferece uma visão de um terceiro sobre nossa atividade. Existem diversos desafios em viabilizar diferentes obras, justamente porque cada obra é uma realidade única, e precisamos estar constantemente aprendendo novos caminhos. O curso é, nesse sentido, uma porta a uma visão de produção executiva, de maneira didática e clara, para ampliar os recursos de outros profissionais.

Que projetos você está envolvida como produtora executiva e poderia citar trabalhos de colegas que você admira nesta área?

Nunca parei para contabilizar, mas acredito que já tenha participado da produção executiva de mais de 30 obras, entre obras já finalizadas e projetos ainda em produção. Alguns projetos mais recentes que estive envolvida incluem o “Motel Destino” (Cannes 2024), já citado, a maior animação já produzida na América Latina, Arca de Noé, ainda inédita no Brasil, e a antecipada série “Senna”, produzida juntamente com a Netflix, além de outros importantes projetos como os representantes brasileiros para o Oscar como “Que Horas Ela Volta?” (2015), “Bingo – O Rei das Manhãs” (2018) e “A Última Floresta” (doc, 2021).

E quais projetos você admira?
A lista de admiração é ainda mais extensa, mas, como especialista em internacionalização de obras brasileiras, destaco aqui os filmes brasileiros que foram selecionados nos principais festivais de 2024 e que chegarão em breve às telas brasileiras. Do Festival de Rotterdam, destaco “Retrato de Um Certo Oriente”, do qual participei da produção executiva ao lado de profissionais muito talentosos do nosso setor, Mariana Ferraz, Ernesto Sotocany, Eliane Ferreira, Guilherme Coelho, entre outros, e “Praia Formosa”, de um time de produção 100% feminino. Do Festival de Sundance, “Malu”, longa de duas produtoras brasileiras muito presentes no mercado internacional Bubbles Project e TV Zero. De Berlin, “Cidade-Campo”, de uma das principais produtoras do Brasil e minha mentora, Sara Silveira, e o “Betânia”, que pude acompanhar de perto e com admiração o trabalho do Marcelo Botta e do Marcelo Campanér em colocar essa produção de pé!

Que dicas você daria para quem quer trabalhar com produção executiva?

A grande beleza dessa área é que ela é muito democrática. Temos pessoas que já eram audiovisual, temos pessoas que migraram do Direito, de bancos, da Contabilidade. Enfim, é um terreno multidisciplinar onde diferentes habilidades são muito bem vindas para compor. Inciaria com um curso abrangente, como o da Ethos ou tantos outros disponíveis, para entender todas as diversas possibilidades e escolher por onde seguir. Existe um caminho delicioso e cheio de desafios de começar um projeto do zero e “levantar” ele, desde o desenvolvimento, financiamento, produção, comercialização”. Existe um caminho no mercado profissional cheio de oportunidades para ingressar em uma empresa produtora. Existe um caminho para empreender dando consultoria ou apoiando projetos já existentes com alguma habilidade específica como trazer fontes de financiamento, prestar serviços de controladoria, etc. As oportunidades já existem, então minha dica é estudar o mercado e entender qual seu caminho nesse universo apaixonante da produção executiva.

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