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Como documentários se tornam
revolucionários, perigosos e emocionantes?

O poder de um bom documentário vai muito além de seu conteúdo. Ele pode mover o mundo em novas direções. Vencedor do Oscar de 2025, o documentário ‘Sem Chão’, dirigido pelos palestinos Ballal e Basel Adra e pelos israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, conta a história da luta de moradores de Masafer Yatta, na Cisjordânia, para manterem suas casas e impedir a demolição pelo exército israelense. Ballal foi atacado por colonos israelenses estabelecidos na palestina, tendo sido linchado por conta do conteúdo de seu filme. Mas afinal, de onde vem o poder de mobilização de um documentário? Franthiesco Ballerini, doutor em Processos Socioculturais e professor do curso de História do Documentário da Ethos Comunicação & Arte, aponta as qualidades de um bom documentário e os grandes filmes da história.
O que é, para você, um bom documentário?
Um bom documentário é aquele que nos envolve pela forma como aborda o tema e seus personagens. Qualquer tema pode ter impacto mundial, desde que abordado de forma que encontre uma narrativa que toque o coração do público, que por sua vez se solidariza e se emociona com a causa e as experiências dos documentados. Documentário de cinema não é jornalismo, envolve um pensar apurado na forma de abordar e contar a trama por imagens. É uma forma apurada de humanizar histórias, mesmo muito distantes da gente.
O documentário também pode envelhecer mal por representar um povo ou um tema de forma hoje não aceita?
Sim. O primeiro documentário de grande notoriedade da história do cinema foi Nanook, o Esquimó (1922), feito por Robert J. Flaherty num estilo influenciado pelo romantismo e também usando a técnica de encenação de Curtis, pois ele queria registrar como o povo Nanook vivia no norte do Canadá antes daquele tempo em que sua equipe estava filmando, então muitas das cenas são encenadas, como a construção de iglus e métodos de caça usados séculos antes por aquele povo. Este estilo foi chamado de observação participante, na qual o corpo de documentaristas interferia propositadamente no objeto filmado. Ou seja, definir documentário é uma missão difícil desde seus primórdios, porque aqui há encenação para a câmera, sem o registro espontâneo do povo. Flaherty, no entanto, foi criticado por representar de forma simplista e romântica a vida dos Nanooks, tentando, em vão, filmar a vida deles de forma atemporal e imprimindo a visão do branco da cidade sobre o bom selvagem das terras longínquas.
Cite um documentário que considera revolucionário?
Dziga Vertov, em ‘Um homem com uma câmera’ (1929) foi quem, sem dúvida, primeiro revolucionou a linguagem documental. Com seu conceito de Cine-Olho, pretendia fazer da câmera o instrumento para ver o que os olhos não enxergavam, ir além da mera reprodução, mas sem cair em simbolismos espirituais. Capturando instantes, objetos, pessoas e elementos fugazes, Vertov manipulava-os com inversões de projeção, aceleração dos frames, sobreposições, fusões, justaposições e ângulos de causar vertigens. Para tradicionalistas como John Grierson, aquilo definitivamente não era documentário, pois passava longe do mero registro compreensível. Como se isso fosse o limite natural de um documentário. Amante da vida moderna como os futuristas de sua época, Vertov filmava a velocidade, a mecanização e a industrialização, sendo o homem um elemento harmônico no meio disso tudo.
No seu curso você diz também que o documentário pode ser algo muito perigoso. Como assim?
No curso de História do Documentário eu falo do impacto terrível de O triunfo da vontade (1935), dirigido por Leni Riefenstahl. Não se trata apenas de um documentário que registrou a primeiro grande comício do Partido Nacional Socialista em Nuremberg, em 1934, após a chegada do nazismo ao poder na Alemanha no ano anterior, com a nomeação de Adolf Hitler como chanceler do país. A diretora montou um arsenal cinematográfico para capturar todos os ângulos possíveis do comício, com o objetivo de incentivar a glorificação do partido e a deificação de Hitler. O documentário começa com imagens de algo pairando entre as nuvens e o sol, enquanto lá embaixo milhares de pessoas acenavam e olham para o céu. Com uma trilha altamente envolvente, misturando Richard Wagner e música folclórica alemã, movimentos coreografados de soldados e a onipresença de bandeiras nazistas, logo desce do avião, num clima de suspense, a “salvação” que o povo alemão esperava: Adolf Hitler. Sem abrir mão do dualismo problema-solução em sua narrativa, O triunfo da vontade mostrava como única solução o partido e seu líder.
Qual é seu documentarista predileto?
Sem dúvida, Eduardo Coutinho. Ele foi capaz de tirar de seus documentados depoimentos, expressões e emoções que pouquíssimos entrevistadores conseguiram com tamanha verdade e originalidade. Coutinho discutiu a religiosidade nas favelas do Rio em Santo Forte (1999), a pluralidade humana em Edifício Master (2002) e chegou ao ápice com Jogo de Cena (2007), obra-prima que estremece de vez as finíssimas barreiras que separam a ficção do documentário, com mulheres (atrizes ou não?) que falam de suas experiências pessoais, sem nunca termos certeza se são atuações ou depoimentos reais. E propondo se, talvez, a atuação pareça mais verdadeira do que a própria realidade vivida.
E que documentarista você admira pela proeza narrativa?
O norte-americano Michael Moore, por exemplo, foi muito hábil em utilizar dos aparatos típicos da ficção – trilha envolvente, roteiro com suspense escalonado, enquadramentos que reforçam sentimentos humanos – para endossar sua posição diante de temas muito polêmicos, o que inclui a escolha meticulosa dos dados e pessoas a serem incluídos (e excluídos) de seus filmes. Foi assim quando ganhou o Oscar por Tiros em Columbine (2002), quando discutiu a tara dos norte-americanos pelas armas; e também em Fahrenheit 11 de setembro (2004), quando ele “revelou” a suposta agenda do então presidente George W. Bush para capitalizar com os ataques terroristas promovendo guerras no Iraque e Afeganistão; e Capitalismo: uma história de amor (2009), em que mostra como as grandes corporações sugam dos mais pobres num sistema permanentemente injusto como o capitalismo.
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