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Por que o cinema japonês
influenciou o mundo inteiro

'O Menino e a Garça' (2024), de Hayao Miyazaki, vencedor do Oscar de Melhor Animação

O cinema japonês é considerado um dos mais importantes do mundo no século 20, influenciando indústrias e o cinema-arte do mundo inteiro. É o que nos conta Franthiesco Ballerini, crítico de cinema, autor do livro ‘História do Cinema Mundial‘e professor do curso de ‘História do Cinema Japonês‘ da Ethos Comunicação & Arte. Confira abaixo as razões e filmes que tornaram o cinema japonês icônico e por que Ballerini considera Hayao Miyazaki o maior artista de animação de todos os tempos.

Por que o cinema japonês é tão importante para o mundo?
Desde os seus primórdios, o cinema do Japão criou uma forma narrativa bem diferente da que estamos acostumados no Ocidente. De modo geral, o cinema japonês preza principalmente pela contemplação da imagem, planos mais longos, nem sempre conectados um ao outro por fios narrativos, cuja primazia está na multiperspectiva da imagem. Neste sentido, Yasujiro Ozu foi o maior mestre.

Por quê?
O Ozu dizia que o cinema poderia ser muito mais rico se permitisse que as imagens emanassem múltiplas interpretações. Como quando sentamos à frente de uma obra de arte, como Guernica, do Picasso, e contemplamos o que ela quer dizer do mundo, porque o cubismo é esteticamente daquela forma, como a obra dialoga com o século 20, com a Espanha e com o próprio olhar de quem a contempla. 

Isso vale para todo o cinema japonês?
Quase sempre sim. Talvez uma excessão seria o cinema de samurais, que tem um ritmo de montagem mais rápido, algumas vezes parecido com a linguagem e a narrativa ocidental de filmes de ação e faroestes. Mas mesmo estes filmes possuem um grande apego à contemplação imagética, como podemos ver, por exemplo, em ‘Os Sete Samurais’, de Akira Kurosawa.

Em termos de temática, o que lhe chama mais a atenção?
Estes dois diretores, o Ozu e o Kurosawa, foram grandes mestres em abordar os dramas e as tradições culturais japonesas, cada um de sua forma. Em ‘Era Uma Vez em Tóquio’, por exemplo, o Ozu mostra o deslocamento da geração mais velha quando fica alijada da criação dos netos, que vivem numa Tóquio moderna e repleta de pessoas ao redor. Em ‘Ikiru’, Kurosawa mostra a renúncia de um pai que passou a vida poupando para criar o filho sozinho e como este filho não dá valor para isso e só pensa em bens materiais. São dramas poderosos, que discutem, também de forma muito contemplativa, o poder das imagens nas quais os personagens estão inseridos em cada cena, como quando o pai sai do consultório médico com o diagnóstico de câncer e a câmera se abre mostrando a pequeneza do personagem diante do caos urbano da cidade. 

O cinema japonês também é premiado pelos animes. Como você os analisa?
O Japão é uma referência mundial há décadas. Primeiro por que animações nunca foram destinadas apenas a crianças e adolescentes. É um mercado tão grande que há nichos para adultos, garotas, garotos, crianças e até idosos. Mas a forma como se criaram personagens e se construíram imagens belíssimas, isso é o que encanta o mundo todo. E neste aspecto, Hayao Miyazaki é o maior de todos. Do mundo. 

Por quê?
Hayao é um artista puro. Preocupado apenas com suas obras num grau de detalhamento tão grande que ele chegou a levar um mês para fazer 3 segundos de uma animação. Seu preciosismo é evidente em cada cena, na riqueza com que compõe os cenários, os traçados, sombras, os movimentos dos personagens e suas características físicas e de personalidade. Ganhou o Oscar duas vezes e, para ele, a premiação nunca foi uma meta, mas mera consequência a ponto de nem ir à premiação. ‘Viagem de Chihiro’ é a maior animação de todos os tempos, uma história grandiosa de coragem de uma inocente garota em busca de seus pais num mundo cruel e impiedoso, repleto de referências ao cinema fantástico e ao surrealismo. Uma pena que este artista esteja se despedindo do cinema. Mas o Japão tem inúmeros animadores e cineastas competentes, que priorizam a beleza e a potência interpretativa da imagem como poucos países do mundo.

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