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Cancelado e premiado
as curiosidades do cinema alemão

O cinema alemão talvez seja o que tenha passado por mais altos e baixos no século 20. É o que nos conta Franthiesco Ballerini, autor do livro ‘História do Cinema Mundial‘ e professor do curso de ‘História do Cinema Alemão‘ da Ethos Comunicação & Arte. Nesta entrevista, ele conta como o país que abrigou o maior movimento cinematográfico dos primeiros 50 anos do século 20 sucumbiu ao nazismo e, depois, se reinventou com diretores aplaudidos e premiados no mundo todo.
Como você definiria o cinema alemão no século 20?
Um cinema de grandes paradoxos. Talvez o cinema mais ousado, polêmico, infeliz, catastrófico, premiado e influente da Europa por muitos anos. Todos estes adjetivos não são exageros. O cinema da Alemanha foi de um extremo ao outro no século 20. De uma inovação artística que influenciou os grandes mestres do planeta a um cinema de propaganda ideológica que, de tão bem feito, causou um enorme mal à humanidade.
Que inovação artística é essa?
Estou falando do Expressionismo Alemão, que sem dúvida foi o maior movimento cinematográfico até o advento do cinema moderno, depois da Segunda Guerra. O Expressionismo inovou, como nenhum outro, no uso da fotografia, com seus contrastes fortes, mas especialmente na direção de arte, nos desenhos caóticos pintados nos cenários, na maquiagem pesada, na tal geometria do absurdo que surpreendeu o mundo. Seus filmes são referência até hoje e remakes não param de surgir.
Que filmes você destacaria deste movimento?
Primeiro, ‘Nosferatu: uma sinfonia do horror’ (1922), uma adaptação (não autorizada) de ‘Drácula’, de Bram Stocker, e brilhantemente dirigida por F.W. Murnau. Tem uma das atmosferas mais bem construídas do movimento, dialogando com o romantismo, com o gótico medieval, com personagens deformados (monstruosos) como protagonistas, cujo aspecto físico remetia a desejos reprimidos e a uma origem social marginalizada. O outro é ‘Metrópolis’ (1927), de Fritz Lang, sem dúvida uma das 10 maiores ficções-científicas de todos os tempos, adorada até pelos nazistas, e mostrando um mundo dividido entre dois, ricos e operários, numa Berlim distópica que ninguém foi capaz de construir como ele por anos.
E quando o cinema alemão é cancelado?
Antes de ser cancelado, o cinema de propaganda nazista fez muito estrago, em parte por também ser muito bem produzido. ‘O Triunfo da Vontade’ (1935), de Leni Rienfenstahl, é um arsenal cinematográfico para captar todos os ângulos possíveis do comício que colocou Hitler no poder, com trilha envolvente, imagens aéreas, movimentos coreografados, clima de suspense e uma narrativa que abalou, pra sempre, a ideia de que documentário era sinônimo de verdade ou realidade. O filme é estudado até hoje pela precisão da sua produção, mas seus danos foram incalculáveis.
Quando o cinema alemão volta a ser aceito mundialmente?
Com a chegada do Novo Cinema Alemão, uma onda cinematográfica capitaneada por diretores como Werner Herzog, Wim Wenders, Rainer Werner Fassbinder, Alexander Kluge, Margarethe von Trotta etc. Foi um momento em que estes cineastas começaram a enxergar os reais problemas do país e do mundo, muitos de esquerda que odiavam o nacionalismo ufanista que destruiu o país nas décadas anteriores. No meu curso de ‘História do Cinema Alemão’, eu destrincho para os estudantes todas as características e, principalmente, os filmes estupendos feitos por estes diretores. Até na Amazônia vieram filmar, como foi o caso de Werner Herzog com seu ‘Aguirre, a cólera dos deuses’ (1972). Imperdível.
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