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Como Hollywood já lucrou com
tiranos como Donald Trump

O cinema dos Estados Unidos está cheio de exemplos de bons filmes que souberam satirizar, de forma inteligente, políticos autocratas, imprevisíveis e tiranos como o atual presidente Donald Trump. É o que nos conta Franthiesco Ballerini, doutor em processos socioculturais, autor do livro História do Cinema Mundial e professor do curso de História do Cinema Americano, da Ethos Comunicação & Arte. Confira!
Políticos no perfil de Donald Trump já renderam bons filmes em Hollywood?
Sim, e um dos primeiros e mais corajosos foi ‘O Grande Ditador’ (1940), atuado e dirigido pelo genial Charles Chaplin. Note que o filme foi feito quando a Alemanha nazista estava fortemente invadindo países vizinhos e ganhando espaço na recém iniciada Segunda Guerra Mundial. Hitler ainda era um chanceler que mantinha comunicações com outros estadistas e, então, Chaplin vem satirizar e criticá-lo da forma mais brilhante e inteligente já feitas no cinema.
Mas Hollywood já criticou abertamente o próprio Trump ao longo de sua história do cinema?
Sim, e os dois filmes mais emblemáticos são ‘Fahrenheit 11/09’ (2018), de Michael Moore e o recente ‘O Aprendiz’ (2024), de Ali Abassi. Ambos foram premiados e elogiados pela crítica. No primeiro, lançado na mesma época em que Trump ganhou a primeira eleição presidencial, Moore compara sua ascensão a de Hitler na Alemanha. No segundo, Abassi recua e mostra a gênese do presidente, o momento em que ele forma seu caráter e que pessoas influenciaram sua trajetória.
Hollywood sempre criticou abertamente seus políticos?
De forma alguma. Ao contrário. Houve momentos em que Hollywood ajudou os políticos em causas cujos beneficiários eram apenas os norte-americanos. Walt Disney chegou a criar personagens, como o Zé Carioca, para ajudar Washington a manter a América Latina como grande produtora de alimentos para os soldados. E encomendou a cineastas como Frank Capra cinesséries como ‘Porque Lutamos’ (1942) como clara propaganda ideológica capitalista a fim de demonizar o Eixo e mobilizar os norte-americanos a se alistarem no conflito.
Quando Hollywood foi mais crítica ao governo do próprio país?
Acredito que tenha sido na leva que gerou os melhores filmes sobre o maior fracasso bélico da história dos EUA: a Guerra do Vietnã. Num primeiro momento, o cinema glorificou a invasão, com obras como ‘Rambo’ (1982) e ‘Os boinas verdes’ (1968). Mas quando a opinião pública se voltou contra o conflito, Hollywood foi atrás. Afinal, é quem paga os ingressos, e não o governo. Então vieram os clássicos imbatíveis sobre o tema: ‘Apocalypse Now’ (1979), de Francis Ford Coppola, ‘Nascido em 4 de julho’ (1989), de Oliver Stone, e ‘Nascido para Matar’ (1987), de Stanley Kubrick.
Estes temas são abordados no seu curso de História do Cinema Americano?
Sim. No curso fazemos um passeio por todas as fases do cinema dos Estados Unidos, começando com o nascimento da linguagem hollywoodiana, a formação dos estúdios, o faroeste, o cinema moderno, a quebra do sistema de estúdio, o surgimento de filmes B, a Nova Hollywood, a Era de Blockbusters, a chegada de tecnologias como VHS e DVD, a maquiagem de faturamento, a era de games e o streaming. Um delicioso passeio!

