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Por que a dramaturgia está em alta não só
no teatro, mas na comunicação e outras artes

Camila Morgado na adaptação de A Falecida, de Nelson Rodrigues (Reprodução/Divulgação)

A dramaturgia está em alta. E não apenas no teatro. Ela tem se tornado uma ferramenta fundamental para a criação de novas histórias em games, mídias sociais, publicidade, jornalismo e, claro, no próprio teatro, especialmente em musicais, uma área cuja demanda por novidades explodiu nas grandes capitais. É o que nos conta o dramaturgo e ator Marcio Tito, que coleciona indicações e prêmios em festivais de teatro brasileiros e é o professor do curso de Dramaturgia: como escrever para o teatro, da Ethos Comunicação & Arte. Tito, que considera a dramaturgia um misto de indignação e paixão, fala das oportunidades do mercado, seus dramaturgos preferidos e porque Nelson Rodrigues está no olimpo da dramaturgia brasileira até hoje. Confira!

Como você analisa o cenário de oportunidades para quem quer trabalhar com dramaturgia no Brasil?
Existe um novo leque de ações para quem pensa nas estruturas de um enredo e seu consequente desenvolvimento, seja nas mídias sociais, seja no contexto audiovisual. Hoje, sem esforço algum, por exemplo, nota-se a presença de estratégias dramatúrgicas em campanhas publicitárias. Por outro lado, com o avanço da tecnologia, diversos curtas, médias e até longas-metragens são inteiramente produzidos com a utilização de celulares, e isso só é possível quando, em detrimento de uma produção de alto custo, se oferece ao público uma boa história, cuja qualidade do enredo suplantará eventuais imperfeições técnicas. Partindo para outro nicho, mas ainda observando o mercado, pode-se falar na produção de enredos que proporcionem uma boa entrega nas redes sociais, estratégias de venda, produção de games ou, mais naturalmente, diante de uma crescente demanda oriunda do teatro musical. O seguimento dos musicais sofre com a ausência de textos originalmente brasileiros!

Quais foram seus trabalhos mais desafiadores/gratificantes na carreira e conte-nos se você tem projetos em andamento.
Trabalhei com nomes importantes da cena, e tudo isso marcou profundamente a minha atual forma de manifestação artística. Contudo, muitas dessas colaborações foram desempenhadas na função de ator ou autor. Sendo assim, hoje, no exercício da crítica, posso dizer que meu maior desafio tem sido construir minhas falas sempre arejando-as com os exercícios de outrora. Interessa-me que o texto crítico confesse um pouco do meu ator e outro pouco do autor que existe em mim. Além da natural hibridez oriunda desse tipo de projeto, ressalto também os atritos, os conflitos e as questões que saltam do passado para o presente.

Quais são as habilidades necessárias para quem quer trabalhar com dramaturgia para teatro?
Os recursos técnicos são sempre bastante fundamentais em qualquer área que lide com propostas artísticas. Contudo, penso que é essencial deixar claro que esses recursos são de fácil aprendizagem e que um curso que tenha a prática como eixo central poderá equipar o aluno para lidar com as demandas mais estruturais. Adiante, no contexto das habilidades naturais ou previamente desenvolvidas, destaco a criatividade unida ao espírito crítico, bem como a facilidade para reconhecer sistemas e padrões, sobretudo na forma como as pessoas falam e se relacionam, reiterando que há um caráter contraditório na forma como as pessoas afirmam suas posições. A dramaturgia é uma fórmula para analisar o comportamento dos homens e das mulheres perante questões complexas como a política, o desejo e os afetos. Quem deseja escrever para o teatro deve se mostrar disposto a mergulhar em seu tempo e lidar com aquilo que estiver mais incandescente na realidade. Dramaturgia é um misto de indignação e paixão pelo processo contraditório dos sujeitos.

Quais são seus dramaturgos prediletos e o que eles têm de especial, na sua visão?
Para ficar no recorte nacional, menciono Janaína Leite, José Fernando Azevedo, Alexandre DalFarra, Sérgio Roveri e Johnny Salaberg. Agora, voltando um pouco no tempo: Nelson Rodrigues. Destaco sua capacidade de tornar clara a voz e o espírito de certo recorte social, fazendo valer o desejo como arma mortal contra as certezas absolutas e colocando a empáfia e a soberba dos homens em um lugar humilhado, mostrando à força muito mais do que a sociedade brasileira gostaria de ter exibido naquela época. Nelson, para além de um texto ágil e poético, criou sistemas nítidos que entrelaçaram argumentos simples e complexos, e fez tudo isso “apenas” exercitando aquilo que os clássicos sugeriam, trazendo a contradição em primeiro plano e colocando suas personagens sempre perto de um Brasil em eterna posição de raio-X. Nelson foi um observador implacável, ativo e feroz. Fez de seu teatro um contrato agudo com a formulação de uma cena orgânica, que sempre me pareceu necessária para qualquer análise que se queira profunda e próspera acerca do nosso país.

De que forma o seu curso na Ethos é importante para quem quer trabalhar com dramaturgia?
É um curso prático e adaptado a cada aluno ou aluna. Nossa metodologia valoriza aquilo que o estudante já possui como bagagem, tornando o ensino mais dinâmico. Penso que o formato que encontramos é bastante eficiente na operação da produção de uma peça teatral, sobretudo porque sempre procuro trazer exemplos e referências que estejam além do teatro, o que acaba tornando mais arejada nossa conversa, fazendo com que diversas percepções de dramaturgia participem do processo. O fato de ser um programa verdadeiramente prático, que aborda a dramaturgia como parte do conhecimento prévio de quem aprende, utilizando experiências pessoais para tanto, faz da Ethos um local especial para não somente fazer nascer um autor ou uma autora, mas também para refinar quem já embarcou em algum tipo de pesquisa artística.

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DRAMAGURGIA: COMO ESCREVER PARA O TEATRO!